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Pode ser?

Não, não pode.

Há tantos outros verbos e expressões que servem como resposta que acho de extremo mau gosto ouvir um “pode ser”. Denuncia também falta de criatividade. E é indelicado né? Sempre é possível disfarçar a falta de interesse em alguma coisa e o tal do “pode ser” escancara essa indiferença.

Você não tem desejos e vontades? Tá valendo qualquer coisa? Ah ok, você é do tipo flexível então, experimenta de tudo e tanto faz, tá tudo bem, tudo pode ser bacana. É só isso que você quer, algo bacana? Algo que pode ser legal? Você esquece que também pode ser que não seja? E aí, comofaz?

Não recrimino os pouco ambiciosos, nem os indecisos. Um indivíduo com dúvidas não merece pena de morte. Só não tenho paciência para quem não se posiciona. Mesmo na dúvida, há sempre um jeito de definir seu lugar. Ficar em cima do muro declaradamente é mais honesto do que disparar um “pode ser”.

“Pode ser” me lembra um amigo do colégio que evitava as escadas rolantes, porque achava que aquela cena das pessoas ali paradas sendo levadas era deprimente. Eram aquelas pessoas que se largam e se deixam levar, que não tomam atitudes, que não vão atrás do que querem, simplesmente vão por onde e aonde é mais fácil, no modo automático. Pra mim são essas as pessoas que compõem o time do “pode ser”.

Podem ser tantas coisas. Pode ser o medo de fazer escolhas. Pode ser o medo de desagradar. Pode ser que não queira ser taxativo ou radical. Pode ser também só uma mania. Vai saber…

Se você me permitir alguma coisa com um “pode ser”, eu não vou gostar porque não pergunto se posso ou se você pode. Pergunto se quer. E quem quer genuinamente alguma coisa não pensa em permissões: pensa em realizar.

Desde um refrigerante (pepsi ou coca?), refeição (quilo ou a la carte?), uma viagem (interior ou praia?), um sábado a noite (cinema ou balada?) até aquelas questões complexas da vida que nada têm de difíceis. É tudo muito simples: é sim ou não and counting!

Pode ser que seja bom, pode ser que seja ruim, mas que seja de uma vez. Se pode ser, então por quê simplesmente não é e ponto?

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Chances

Ninguém parece estar permitido a perdoar. Nada, ninguém. Todos cobram: a memoria, os amigos, a dor mal curada. Não temos tempo para repetir a fita, vai, vira a pagina, a fila anda etc.

E a gente, se dá quantas chances novas diariamente? Quando se trata de nós mesmos tudo pode, tudo vale, também nao há tempo para se martirizar por um erro, viver com culpa, relaxa, beleza etc.

O argumento é o mesmo, mas por que o beneficio é só nosso?

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Perspectivas

Pensei em escrever um email para uma amiga distante contando o que aconteceu comigo nos últimos cinco anos. Percebi que escreveria por meses, então me propus a resumir tudo em cinco parágrafos (curtos, é importante dizer). O email ficou lindo e minha vida ganhou ares cinematográficos: cheia de emoções, mil realizações, histórias com começo, meio e fim, já com análises e coube ainda no último trecho os planos para o que vem pela frente.

Engraçado que há muito tempo não via minha vida a partir dessa perspectiva. Se olhava para trás, via sonhos que se perderam e outros que perderam a importância. Se olhava para frente, via um caminho longo e sem muito brilho, como se me tivesse na estrada comendo poeira dos jipes que partiram com mais combustível e antecedência. Olhar para o presente então me dava pânico por estar parada no caminho.

Acho que pensar no que já foi feito é importante, não para levar troféus e medalhas para a estante, mas para ganhar fôlego para enfrentar o que vem pela frente – seja bom ou ruim, não dá para prever. Suspirar lembrando das coisas boas, respirar fundo orgulhoso pelo o que foi superado e principalmente sossegar um pouco.

É, porque a gente toda hora tem que lidar com o fracasso de ser só um, de ter apenas duas mãos, de o dia só ter 24 horas, de ter gente que provavelmente não dorme porque tem mais de 30 projetos que são um sucesso enquanto você… Trabalha. Pensa. Sonha. Dorme.

Sei lá o que você faz, mas nunca é suficiente né?

Ando com uma mania de relacionar as coisas que faço como uma forma de metaforizar características minhas (vide o post anterior). Dito isso, posso tentar mais uma matáfora? Fotos. Adoro fotografar, só que está difícil organizar todo o material. Preciso selecionar, editar e publicar muitas ainda. Devia fazer isso, inclusive, antes de sair novamente para fotografar, certo? Pois é, mas não: estou acumulando fotos e mais fotos por ganância de ter um conjunto mais bonito e diversificado e pela falta de saco de parar, imagem por imagem, e pensar sobre cada uma delas.

E aí andei pensando sobre minha ansiedade. Me perguntaram dia desses se eu sou dessas que antecipam as coisas, que têm pressa para que elas aconteçam. Sim, claro, se vão acontecer, que aconteçam logo né. Mas por quê? Não vou culpar o ritmo de São Paulo nem meu DNA para justificar isso. Mas culpo essa sensação frequente de não-realização.

Se quero que aconteça logo, é para que eu já saiba rápido se rendeu o esforço, o sofrimento e a empolgação. Se finalmente o bem-estar do “consegui” vai chegar. Porque se não chegar, eu já tenho que me apressar e correr para virar a página e começar de novo. E claro: evitar passear à toa por caminhos não muito agradáveis acompanhados da boa e velha decepção. Podendo desviar desse trajeto, por que atravessá-lo?

Aí volto às fotos. Posso deixar de editá-las, mas uma hora o HD vai encher. Vai transbordar. Uma hora terei que enfretá-las, uma por uma, sim. Não vai dar para deletar tudo sem pelo menos dar uma boa olhada. E lá vamos nós com a tal da metáfora: tem como pular as tristezas e decepções? Até tem, mas uma hora elas voltam all together now.

Cada um tem seus métodos. Talvez seja preciso parar para resumir a sua vida em cinco parágrafos para se sentir menos ansioso e ver que você já esteve “lá” algumas vezes. E beleza, passou, mas é bom lembrar que existiu. Foi rápido? Deu merda 5 segundos depois? Não importa. Você conhece a sensação. E precisa dela novamente, sempre. Mas não adianta ter pressa, porque pode ser que demore, que chegue e vá embora rápido. Acho que apreciar o caminho até lá não custa, é uma forma de ampliar a sensação de satisfação e amenizar o ápice, já que não dá para se equilibrar por muito tempo no cume.

Da série Rumo ao Prêmio Nobel de Blog de Auto-Ajuda – to ligada

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Sobre afinação de cordas

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Não se deve desistir de afinar o violão. Ele vai teimar a vida inteira em soltar ou apertar mais as cordas. Varia com a temperatura e depende também do dono, se ele cuida, troca as cordas de vez em quando. De tempos em tempos precisa trocar as tarrachas também e tocar. Tocar, tocar e tocar. Até porque quem toca pode ir desafinando junto, perdendo a sensibilidade, o “ouvido”.

Esses dias quando fui afinar meu violão, que está com cordas novas, bonito, reformadinho, comecei a lembrar da dificuldade que é afinar o Sol. É uma das cordas que ficam bem no meio das outras e é chave para definir o som das outras. Não tem como escapar: em nenhum acorde ela passa desapercebida.

É rebelde e engaana bem: você acaba de afiná-la, mas depois de poucos acordes, lá está ela dando as caras e tirando uma com você. Precisa de paciência e sensibilidade para notar seus deslizes.

Mas aos poucos ela volta a soar bem – depois de muito insistir, tirar a poeira da corda e testar sua elasticidade. Como quando despertamos e sentimos a necessidade de nos espriguiçar para conseguir levantar da cama. É o ritual para dar início ao dia, sentir as articulações das pernas e braços plenas.

E assim como o violão tem suas cordas mais fáceis de afinar (como é para mim o Lá e o Mi mais agudo), acho que todos temos também aspectos que se destacam e brilham mais, mas que podem soar desafinados graças a uma má afinação de uma corda chave – dessas que precisam de ajustes diários, atenção, dedicação e paciência. E daí para ajustar todas as cordas num tom errado é um pulo e não há canção que se salve.

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Shalom

Não pode ser a toa que o sal do Mar Morto cicatrize feridas. E aí faz todo sentido o fato de nossas lagrimas serem salgadas…

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Inesquecível: Ouvir as rezas dos judeus no Muro das Lamentações com canções árabes de trilha sonora

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Aqui tudo ganha força e carga emocional numa intensidade de forma que nos sentimos minúsculos e gigantescos ao mesmo tempo. É uma das melhores sensações do mundo!

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Chega uma hora que a pretensão de observar tudo friamente e imparcialmente se perde. Os pensamentos são interrompidos e só sobra espaço para emoção pura

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Desculpem os clichês, mas agora nao me interessa encontrar as melhores palavras porque nao estou atras de definições. Seria burrice achar que eu consigo digerir tudo agora…

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Fórmula

Quantas noites mal dormidas são necessárias para ter um dia produtivo e inspirado?

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sobre taguear fotos

Tô em crise com as minhas fotos do Facebook. É, essas que os amigos te tagueiam e aparecem pra todo mundo (ou pra todos seus amigos no mínimo) – daí é fácil entrar em outra crise, do tipo “lá não estão só meus amigos, tão colegas e ex-colegas de trabalho, faculdade, escola, família e uma porrada de gente ‘conhecida’ que eu nem diria “amigo” mas quero ter o contato fácil ali (mas aí é frescura demais da minha parte, ok, Zuckerberg quis assim).

Tem gente criativa, que tagueia uma foto que você não aparece pra querer dizer alguma coisa (como o Fellipe que me taguaou na paisagem de Madri ou a Dani que me tagueou na cartinha que dei pra ela de aniversário). Legal, bonito, simbólico. Eu gosto, acho simpático, poético e bonito.

Tem gente que tagueia porque, poxa, gosta de você, quer te mostrar que colocou uma foto sua lá no álbum dela, quer mostrar que você faz parte da vida dela e ela da sua. Lindo, brigada, eu adoro!

E aí tem pessoas que você não fala há mais de 5 anos (e quando falava era tipo um oi-tudo-bem genérico) que te tagueiam num álbum de calendário de aniversários (pra depois vir escrever no teu mural um significativo “oi, parabéns” que eu dispenso porque né, quer dizer, nossa, MUITA coisa), num álbum de “que tipo de amigo você é” e coisas do gênero. Hum, não quero.

E bom… seus amigos do coração não tem culpa também que você é uma pessoa em crise, que não sai bem em foto desde 2004 quando ainda tinha cabelo liso e era magra. E aí você sai mal nas fotos do casamento de uma das suas melhores amigas. Vai tirar a tag? Não pode né, tá errado, sacanagem!

Mas em tantos outros casos, penso o seguinte: fui tagueada – vou lá, vejo, comento, xingo, agradeço, dou um like, sei lá… e tiro. É, tiro. Porque essa história de álbum de foto na internet é uma coisa muito pessoal. Outro dia descobri que meu telefone residencial tá no Google e como faz pra tirar? Pois é, ainda to tentando descobrir. Mas não quero. E já que ainda tem escolha e controle, quero poder usufruir disso.

Eu quero escolher as minhas fotos, sabe. Ou foto nenhuma. Ou acato a sugestão e adiciono aquela foto pro meu álbum. Lindo. Mas é minha escolha, é de mim que estou falando, não é? Não parece óbvio? Parece dramático também, eu sei, mas… ando me irritando com isso porque acho que reflete um monte de outras coisas toscas que existem por aí. Sobre isso: escolhas, controle, direitos. Achei a palavra: direito. Ninguém tem o direito, por mais que seja a minha mãe, de decidir o quê meus outros amigos (ou mais) vão ver de mim – só eu.

E aí com isso eu sei que um monte de gente que ler esse texto não vai entender e vai interpretar mal, vai me achar egoísta, pirada, exagerada, chata, enfim, acontece. Mas fica aí a dica, acho que todo mundo devia pensar melhor do que expõe de si mesmo na internet. As pessoas só pensam na faminha, nos likes e na repercussão de coisas boas, mas não pensa que essa vida digital que a gente cria tem vida longa e é cheia de consequências (pronto, acabou a lição de moral).

E por que a crise então? Não tá resolvido? É só ir lá e tirar as tags e ser feliz… não? Pois é, não.

Se por um lado posso e tenho o direito de decidir isso, por outro… as redes sociais facilitaram a camuflagem das pessoas, a padronização, a farsa e a não-espontaneidadezzzzzzzz….calma, é rápido! E aí você tem a chance de deixar rolar e deixar à mostra o que o bom senso e a criatividade dos seus amigos escolheram e vai boicotar isso? Por medo de não ter saído bem numa foto? De não querer mostrar que você foi naquele bar? Porque você acha que aquela pessoa nem é tão sua amiga? Porque você quer preservar sua intimidade? Porque… sei lá, não é bobagem na maioria dos casos? Porra, que covardia! Que preocupação excessiva com sua imagem, você não tem vergonha?

Eu tenho vergonha, mas quem não se preocupa nem um pouco com o que os outros falam ou pensam de você tá mentindo. E acho que tá todo mundo num barco parecido (esses que tiram tudo e não se expõem e os que se expõem ao extremo): um está alheio a mil coisas incríveis que a internet proporciona, diverte e oferece e o outro tá tão desesperado em aparecer e ter atenção que se torna um ridículo.

Então cada um que encontre sua medida aí, até porque cada um gosta ou se incomoda com uma coisa diferente – apesar de o fundo azul ser o mesmo para todos nós mortais que temos Facebook. Eu acho que depois (e graças a) desse texto acabei de encontrar o meu meio termo. E boa noite.

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