Perspectivas

Pensei em escrever um email para uma amiga distante contando o que aconteceu comigo nos últimos cinco anos. Percebi que escreveria por meses, então me propus a resumir tudo em cinco parágrafos (curtos, é importante dizer). O email ficou lindo e minha vida ganhou ares cinematográficos: cheia de emoções, mil realizações, histórias com começo, meio e fim, já com análises e coube ainda no último trecho os planos para o que vem pela frente.

Engraçado que há muito tempo não via minha vida a partir dessa perspectiva. Se olhava para trás, via sonhos que se perderam e outros que perderam a importância. Se olhava para frente, via um caminho longo e sem muito brilho, como se me tivesse na estrada comendo poeira dos jipes que partiram com mais combustível e antecedência. Olhar para o presente então me dava pânico por estar parada no caminho.

Acho que pensar no que já foi feito é importante, não para levar troféus e medalhas para a estante, mas para ganhar fôlego para enfrentar o que vem pela frente – seja bom ou ruim, não dá para prever. Suspirar lembrando das coisas boas, respirar fundo orgulhoso pelo o que foi superado e principalmente sossegar um pouco.

É, porque a gente toda hora tem que lidar com o fracasso de ser só um, de ter apenas duas mãos, de o dia só ter 24 horas, de ter gente que provavelmente não dorme porque tem mais de 30 projetos que são um sucesso enquanto você… Trabalha. Pensa. Sonha. Dorme.

Sei lá o que você faz, mas nunca é suficiente né?

Ando com uma mania de relacionar as coisas que faço como uma forma de metaforizar características minhas (vide o post anterior). Dito isso, posso tentar mais uma matáfora? Fotos. Adoro fotografar, só que está difícil organizar todo o material. Preciso selecionar, editar e publicar muitas ainda. Devia fazer isso, inclusive, antes de sair novamente para fotografar, certo? Pois é, mas não: estou acumulando fotos e mais fotos por ganância de ter um conjunto mais bonito e diversificado e pela falta de saco de parar, imagem por imagem, e pensar sobre cada uma delas.

E aí andei pensando sobre minha ansiedade. Me perguntaram dia desses se eu sou dessas que antecipam as coisas, que têm pressa para que elas aconteçam. Sim, claro, se vão acontecer, que aconteçam logo né. Mas por quê? Não vou culpar o ritmo de São Paulo nem meu DNA para justificar isso. Mas culpo essa sensação frequente de não-realização.

Se quero que aconteça logo, é para que eu já saiba rápido se rendeu o esforço, o sofrimento e a empolgação. Se finalmente o bem-estar do “consegui” vai chegar. Porque se não chegar, eu já tenho que me apressar e correr para virar a página e começar de novo. E claro: evitar passear à toa por caminhos não muito agradáveis acompanhados da boa e velha decepção. Podendo desviar desse trajeto, por que atravessá-lo?

Aí volto às fotos. Posso deixar de editá-las, mas uma hora o HD vai encher. Vai transbordar. Uma hora terei que enfretá-las, uma por uma, sim. Não vai dar para deletar tudo sem pelo menos dar uma boa olhada. E lá vamos nós com a tal da metáfora: tem como pular as tristezas e decepções? Até tem, mas uma hora elas voltam all together now.

Cada um tem seus métodos. Talvez seja preciso parar para resumir a sua vida em cinco parágrafos para se sentir menos ansioso e ver que você já esteve “lá” algumas vezes. E beleza, passou, mas é bom lembrar que existiu. Foi rápido? Deu merda 5 segundos depois? Não importa. Você conhece a sensação. E precisa dela novamente, sempre. Mas não adianta ter pressa, porque pode ser que demore, que chegue e vá embora rápido. Acho que apreciar o caminho até lá não custa, é uma forma de ampliar a sensação de satisfação e amenizar o ápice, já que não dá para se equilibrar por muito tempo no cume.

Da série Rumo ao Prêmio Nobel de Blog de Auto-Ajuda – to ligada

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1 comentário

Arquivado em Prosas

Uma resposta para “Perspectivas

  1. rolicco

    Auto-ajuda ou não, olhar pra trás ajuda a gente a perceber algumas vitórias, outras cagadas, mas sempre a pensar sobre elas e tentar melhorar =) Uma vez escrevi um texto que hoje acho meio tosco, meio egocêntrico, mas que também falava de como às vezes é legal olhar pra trás. To deixando a vergonha de lado e compartilhando aqui: http://sociedadesolo.wordpress.com/2010/01/08/os-nao-se-ves/

    Gostei desse teu canto 😉 Se conseguir, volto mais vezes (você tem um HD cheio de fotos; eu tenho zilhões de e-mails não lidos e um metro de jornal acumulado no meu quarto, heheh)

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