Tema Livre

Essas duas palavras sempre me causaram assombro. Nas aulas de redação da escola, nas toscas entrevistas de emprego, no curso de criação literária ou quando eu invento de postar no meu blog qualquer coisa que me vem à cabeça. Por quê?

Sei que não me faltam ideias. Sou dessas que falam compulsivamente sobre qualquer coisa, emendo uma história na outra e tenho insônias “criativas” (entre aspas porque acabo não criando nada, mas minha cabeça caótica passeia por mundos diversos e divergentes em questão de segundos). E curiosamente quando entro nesses “momentos-lupping” os pensamentos vêm em forma de texto, pontuados e tudo.

Pouco tempo depois trava tudo. Chego a ligar o computador ou pegar um caderninho e uma caneta e…branco. As palavras se misturam, os pontos se perdem e a ideias já não parecem mais tão claras, óbvias ou geniais (sim, porque nessas horas tudo parece um incrível insight originalíssimo). Já até escrevi um texto, “A crise da pauta”, sobre não conseguir elaborar temas focados que virassem uma reportagem.

O fato é que não me sinto confortável tendo liberdade. Falo aqui de prazos e caracteres, mas acho que isso se estende a outras coisas da minha vida, como por exemplo falta de rotina. Eu acreditava ser dessas que gosta de novidades todos os dias, que não consegue permanecer no mesmo lugar com as mesmas pessoas e me descobri uma caxias de primeira. Racionalmente eu não gosto mesmo de horários, obrigações, exigências e chefes, mas percebo que preciso disso tudo. Sinto falta.

Preciso de ordem pra praticar a bagunça. Preciso de uma estrutura pra saber o que vou querer desestruturar. Com liberdade para falar e fazer o que me der na telha fico totalmente catatônica. Sem vontade. Nada me inspira a querer fugir, protestar, vibrar, reclamar, lamuriar e blablablá.

E aí sim, com uma rotina estabelecida, consigo ir escapando, tendo vontade de fazer caminhos diferentes, ver pessoas diferentes, almoçar em outros lugares, escolher bares de última hora e de lá quem sabe até ver um filme que nem estava na hot list do mês. Ou simplesmente curtir ir para casa e dormir cedo, só para variar. Porque aí já encontrei uma brecha para brincar e pá: aquela primeira rotina já foi burlada. Virou outra. E jajá muda de novo, mas ela existiu no princípio de tudo.

Escrever também é assim. Me dê um prazo, me dê um tema, me dê até palavras para começar um texto ou finalizá-lo. Me dê frases, me dê um enigma ou uma charada pra eu tentar desvendar num texto. Me dê uma foto, um quebra-cabeça, uma boneca. Qualquer coisa pra me dar um start, um rumo, um norte. Nem que depois eu desloque o norte pro sul…

De uns tempos pra cá, tenho evitado textos-desabafo. No começo, foi por precaução, depois por vergonha e agora por impossibilidade. E quando digo desabafo, não falo apenas aquele lero-lero sentimentalista estilo “meu querido diário, hoje levei um fora”. Digo colocar o que sente no papel, não necessariamente de forma mega-exposta. Triste foi perceber que nem pela boca essas emoções saíam mais. Será que cresci? Pior, endureci?

E aí os temas-livres que me apareceram foram quase todos descartados ou ignorados. Às vezes penso em voltar a escrever sobre amor e afins, em outras vezes acho interessante falar sobre um filme, uma ideia, uma conversa, uma história que ouvi no metrô ou sobre o porquê ando pintando há dois meses minhas unhas de vermelho. E tudo parece tão sem graça, tão clichê, tão pobre, tão confuso, que se dispersa na minha cabeça e eu desisto.

Só que dessa vez parti pro ataque. Questão pessoal. Desafio aceito. Já não podia voltar atrás. Te vira, mulher! E é por isso que eu gosto tanto do Fellipe, ele que é tão diferente de mim em sua forma de escrever, hoje é o grande incentivador desses desabafos, que ele, Anoca, Pri, Vanz e Thaís transformavam em literatura. Isso eu ainda não sei fazer, talvez nunca saiba. Mas a tentativa é sempre prazerosa.

Texto escrito especialmente para o blog do Fellipe Fernandes dentro do projeto coletivo #prontofalei que, segundo ele mesmo, é um “um espaço para desabafos e reclamações, cultos e exaltações, o que você estiver afim de falar para o mundo. o tema e o tamanho são livres”. Se quiser participar, entra lá!

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