Whatever works

Olha, não sei se qualquer coisa funciona, sei que o título “Tudo pode dar certo” é uma das traduções mais equivocadas que já vi. Quem vê de relance até compra, mas é só pensar sobre a equação Woody Allen + Larry David que você presume fácil que ela não será = a uma mensagem minimamente otimista ou isenta de sarcasmo.

Até então, era meio suspeita para falar de Woody Allen. Mas isso se deve ao fato de não ter visto mais que um terço dos filmes dele – e talvez por isso até agora não tinha enjoado ou previsto cenas ou falas.

O fato é que o filme veio em boa hora. A hora em que eu estava mergulhada num mau humor e ceticismo em relação à tudo e todos. E mesmo com todo o pessimismo do Bóris (o protagonista vivido por Larry David), saí do cinema com uma sensação boa.

Mas achei os personagens Melody e Bóris, no início, caricatos demais. Caricaturas vira e mexe funcionam, mas até o momento em que eles ficam juntos, achei meio mais-do-mesmo e previsível. Me incomodou também essa coisa de um falar algo de impacto enquanto o outro está falando sem parar sobre banalidades e este só depois parar e dizer “peraí, você disse que sua mãe morreu?”. É engraçado de primeira. Mas toda hora brincar disso é meio over, eu acho.

Bom, mas depois que eles ficam juntos e a mocinha bonita e burra “evolui”, parece também que os diálogos ficam mais surpreendentes e as caricaturas ficam divertidas. E a partir daí as coisas ganham um ritmo interessante, até porque outros personagens também ganham destaque.

Frases como “estou cercado por micróbios” e “somos uma espécie que deu errado” me fizeram vibrar. Acho que isso explica um pouco o número alto de seguidores do @bomdiaporque . A comédia romântica argentina “Um namorado para minha esposa” também explora o humor do mau humor quando a tal mulher rejeitada pelo marido arruma um emprego numa rádio. Ela é tão mau humorada que a saída para o radialista foi convidá-la para trazer todos os dias “pílulas de mau humor”. Faça uma lista de tudo o que te irrita e traga para ler no programa, disse o apresentador. Sucesso.

A ideia de que “whatever works” me contagiou. Essa coisa de que o amor não é (nem deve ser) racional, me pareceu muito bonita – a Pri também ficou com essa pulga atrás da orelha. Apesar de o final ter um toque de realismo fantástico (sem spoliers, mas é tipo um príncipe encantado caindo do céu diretamente no seu colo), o absurdo serviu pra me chacoalhar na cadeira e quase ouvir: “ridículo, não? pois é, e você taí perdendo chances que nem esse idiota”.

Encontrei uma explicação para o possível incômodo que senti no filme no texto que a Neusa Barbosa escreveu: “trata-se de uma grande reciclagem de bons momentos e de outros nem tanto da, a esta altura, vasta obra de Woody Allen”. Mas para mim foi o Giannini o que melhor sacou o lance do filme: “aparências são atropeladas pelo acaso e pelas surpresas que a vida nos apresenta”. Daí a sensação boa de sair do Unibanco com um desejo de leveza e uma vontade de trombar no inesperado e surpreender – porque também não dá pra ficar sentada esperando ser surpreendida.

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6 Comentários

Arquivado em Drinks

6 Respostas para “Whatever works

  1. fellipefernandes

    Debbie,
    o Woody Allen sempre é um cineasta interessante de se ver, mas é muito produtivo e, como todo artista produtivo, grande parte de sua obra é permeada por algumas “operas-primas” em meio a um tanto maior de filmes medianos, tal o Whatever Works. Eu gostei do filme, mas tenho minhas ressalvas. E fiquei curioso pelo argentino que você citou. Vamos ver se consigo ver.
    Enquanto isso, adoro ver seu blog atualizado ao mesmo tempo em que um texto seu atualiza o meu…rs
    te amo.
    bjo

  2. Oi, Débora, gostei do seu comentário. Eu adorei esse filme e essa coisa “cética” dele.

    SPOILER:

    Sobre o final, eu achei uma grande sacada, apesar de muita gente ter chamado de “óbvio” ou “final feliz”. O final é o “Whateve Works” em si, ou seja, o que funciona naquele momento específico, apesar dos “planos”: o cético com a médium, o machão virando gay, etc. Não é o final feliz: simplesmente aconteceu e funcionou assim – nada de planos, “alma gêmea”, nem felizes para sempre. Achei esse final (re)afirmação do ceticismo do filme.

  3. Melissa

    Eu ainda não vi esse filme e ainda não vi o argentino que eu queria ter visto no cinema. Mas tive que comentar que minha amiga disse que a personagem do “Um namorado para minha esposa” é igual a gente (eu e essa amiga). Bom, tendo pleno conhecimento do meu próprio mau humor, devo admitir que eu acredito nela e tô louca para ver o quão parecidas somos.

    Beijos

  4. Dani

    Honey,
    pra começar tenho que dizer que amei as suas fotos do Atacama. Nádião comentou comigo ontem… lindas mesmo!
    E sobre o Whatever works, mergulhei de tal maneira no universo desse filme que comecei a creditar que foram as forças do destino e do acaso que fizeram com que eu ganhasse os ingressos por 2 reais no catraca livre para assistí-lo! Caiu como uma luva nesse meu momento. E agora o lema virou: relaxe, e deixe o acaso chegar… mesmo que caindo em nossas cabeças…

  5. Uau, Rafa, não tinha pensado sobre o final do filme dessa maneira. Adorei sua observação, faz muito sentido pensar que reafirma o ceticismo, justamente por não ser um fim perfeitinho…boa!

  6. Sabe que depois de ter visto o filme, eu bem que gostei da tradução do títutlo. Gostei porque a gente compra a idéia achando que dar certo é ter final feliz e dar certo é só funcionar, na maioria das vezes. E funcionar, ser regular é dar certo. E o que o rafael disse tem todo sentido. Não teve final completamente feliz, pq no fim das contas estavam todos contrariados, mas rolou. Acho que a gente espera muito da vida, mas somos comuns. Pq alguém comum teria um fim extraordinário? E o que é extraordinário? Eu não gosto do woody, de modo geral, acho ele ok, mas longe de ser o gênio que cantam por aí! Mas esse filme, eu gostei. TÔ pensando um milhão de coisas, mas acho que meu espaço é limitado aqui. BEIJAO

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