É por isso que eu gosto de mendigos

“JIM

Você disse que ele tinha sido esfaqueado num abrigo.

FRED

Coerência é o fantasma das mentes pequenas”

Adultérios, do Woody Allen

E aí você tá num bar, na mesa posta na calçada, achando até que é uma noite agradável, apesar de fria. E lá vem eles. Ou crianças com balas ou flores, ou bêbados, ou vendedores de bijuterias tortas, místicas e enferrujadas ou mulheres desdentadas que apanham do marido ou bebem ou ambas.

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“Não, obrigada”

“Hoje não”

“Vou passar o cartão, tô sem moeda”

“Eu não uso bijoterias”

“Não, aço cirúrgico também me faz mal”

“To de regime, senão até comprava”

“Sei…sei…entendo…poxa…sério?…nossa…aham…claro, claro”

“Não, são lindas as rosas, mas é que a gente não namora”

“Olha, não tenho moedas, mas se você quiser um cigarro…bom, é o que eu tenho”

Eles não querem moedas, cigarros ou uma dose: eles querem contar uma história. Não há coerência no que eles dizem. Cada hora querem uma coisa, contam histórias de uma vida fora das ruas, cheia de artistas, dinheiro…E como é que eles foram parar lá, na sua mesa de bar, te vendendo ou apenasa pedindo alguma coisa?

“Óóó, que graça, ela se preocupa com questões sociais”. Não. Só que é mais simples do que parece e, claro, mais triste do que se imagina. É tipo um bullying com a gordinha nerd da 2ª série porque ela fede a cheetos e dizem que faz xixi nas calças. Ainda.

Pois bem. Ela te observa no recreio, você e suas amigas lindas cor-de-rosa, limpinhas e fofinhas. Ela ouve as risadas, as brincadeiras e sonha ficar amiga daquela que dá risadas altas e fala pelos cotovelos. É aquela que parece ser a mais simpática, não poderia ser cruel. Ela também deve gostar de salgadinhos e não deve se importar se às vezes alguém sem querer faz xixi nas calças, ora bolas, porque afinal isso acontece nas melhores famílias.

E aí ela pede uma canetinha, um apontador, uma borracha emprestado. Ela pede um pedaço do lanche que a mãe fez pra menininha cor-de-rosa. Gulosa e folgada. Chata. Insuportável. Pentelha. Feia.

Essa coisa gostosa de ser bonito, querido, requisitado, normal, ter amigos, rirem das suas piadas, bancar a baladinha de sábado, sexta, quinta, ter roupinhas modernosas… é só pra “quem pode”, né não?

E aí o mendigo te enche o saco, te cutuca, não te larga, se bobear até senta na sua mesa e você fica puto da vida. Até que aparece o garçom, a polícia, o marido bêbado da louca que pedia cigarro pra você e “ufa, acabou”.

E então você volta ao papo que tava tendo com a sua companhia no bar e pronto, a noite volta a ficar agradável, apesar de fria. Apesar de um cigarro a menos. Apesar de 10 minutos a menos, que poderiam ser gastos em super papos incríveis. Dez minutos que não adiantaram em nada, nem pra você, nem pro mendigo. Ele continua louco, você continua “coerente”.

Foto: Palhaço vendedor de balas, rodoviária do Plano Piloto, Brasília/DF, por Pedro Ferrari

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