Foi Apenas um Sonho

Uma mulher de costas na sala de estar, olhando para a rua através da janela e a saia se tingindo de vermelho: foi esta a cena que me marcou em “Foi Apenas um Sonho” (“Revolutionary Road”) e que para mim simboliza toda a beleza e a tristeza do filme.

revolutionary-road-pic

Poderia se tratar de um retrato de uma época difícil para as mulheres que tinham mais ambições do que ser mãe e dona de casa. Ou ainda um filme que sugerisse (mais) uma discussão sobre o que há de problemático e sombrio nos relacionamentos amorosos, com todos aqueles casais fakes e camuflados em seu próprio rancor (o de serem comuns e infelizes). Mas vai além de tudo isso.

É a história de uma mulher (April, vivida por Kate Winslet) que vê o amor que sentia pelo seu marido (Frank, vivido por Leonardo Di Caprio) se degradar às custas da frustração de não ter realizado um sonho profissional. Queria ter sua importância. Queria ser especial de fato.

Ele perdeu o brilho que tinha quando foi considerado por April o cara “mais interessante que já havia conhecido”, pois, pior que ela, não percebia o quanto havia sido engolido pela (fácil) sensação de bem-estar por seguir o modelo de homem bem-sucedido e manter “a família perfeita” em ordem.

Não duvido que o amor entre eles ainda existisse – tanto que floresceu após a decisão de se mudarem para Paris para tentar uma nova vida, onde ela o sustentaria trabalhando como secretária e ele teria tempo para se dedicar aos estudos ou ao que desejasse fazer. Poderiam construir outra vida, interessante de verdade, e irem atrás de realizações. Bom, pode ser que o amor já tenha acabado também, mas esse não é o ponto central anyway.

Além da forma interessante e envolvente que a narrativa se desenrola e cresce, da atuação de Winslet e Di Caprio, da escolha da música tema, o filme me conquistou por mostrar desejos genuínos de uma mulher, egoísta para uns, louca e doente para outros, que só queria…viver o “além”. Queria trilhar seu próprio caminho, construir e seguir suas próprias regras e ir contra o impulso básico de se deixar levar pelo padrão de vida comum e banal e viver o intenso.

Mas eles não vão e tudo murcha e perde a cor novamente. Pior do que viver conformada e desiludida é se frustrar pelo “quase”, ter sua fantasia interrompida e ser obrigada a voltar para a chata realidade. Ela não quer falar mais, não quer ouvir, prefere silenciar. Como todos hoje silenciam suas verdades, desejos e pensamentos mais íntimos. Na maioria das vezes, até para si – tem coisas que são insuportáveis de se encarar até mesmo vindo de nós próprios. Como todos hoje se calam, se retraem, se travam e se proíbem de arriscar cada vez mais. Melhor o silêncio, a ausência, o previsível do que uma tentativa que pode causar ainda mais prejuízo caso não seja bem sucedida. Mas de uma forma ou de outra, muitos sangram e deixam essa vida (ou possibilidades, vontades, dependendo das proporções) escapar.

E é lindo. Ponto.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Petiscos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s